Policial militar é condenado a 58 anos de prisão por mortes em show sertanejo em Piracicaba
12/03/2026
(Foto: Reprodução) Após júri popular, PM é condenado a 58 anos e quatro meses de prisão em Piracicaba
O policial militar (PM) Leandro Henrique Pereira foi condenado, nesta quinta-feira (12), a 58 anos e quatro meses de prisão pela morte de duas pessoas e tentativa de homicídio contra outras três durante um show sertanejo em Piracicaba (SP) em novembro de 2022. Cabe recurso.
O júri decidiu pela condenação por dois homicídios duplamente qualificados, além de tentativa de homicídio duplamente qualificada. Todos os crimes tiveram dolo eventual (quando não há intenção direta de matar, mas o réu assumiu o risco de causar mortes).
As qualificadoras dos três crimes foram o perigo comum e recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa das vítimas.
O julgamento começou às 10h de quarta-feira e se estendeu até a madrugada desta quinta no Fórum de Piracicaba. O advogado de defesa do PM condenado, Renato Soares, informou que deve recorrer da decisão.
O caso teve sete adiamentos nos últimos anos. Em 11 de março de 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) suspendeu o júri pela quinta vez, determinando a paralisação até o julgamento de um habeas corpus da defesa — entenda abaixo.
O show ocorreu no Parque Unileste e os tiros disparados mataram Leonardo Victor Cardoso, de 25 anos, e Heloíse Magalhães Capatto, de 23 anos. Além disso, ficaram feridas pelos tiros outras três pessoas de 20, 21 e 27 anos.
Tentativa de homicídio: em relação à tentativa de homicídio com dolo eventural dessas três pessoas mencionadas, a setença indica que o PM, embora não tenha tido intenção de matar, assumia os riscos da ação.
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Após 7 adiamentos, PM acusado de matar duas pessoas durante show vai a júri em Piracicaba
Como foi o júri
Até o primeiro intervalo da sessão, no início da tarde desta quarta, duas vítimas que ficaram feridas pelos disparos já haviam sido ouvidas. Segundo o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP), até o fim da tarde, outras três testemunhas deram o depoimento.
Segundo o advogado de defesa, Renato Soares, o réu também foi interrogado por cerca de uma hora e meia. O depoimento do policial militar foi finalizado no início da noite — quando o julgamento já somava cerca de nove horas de duração —, e a sessão entrou em intervalo.
Com o retorno da sessão, o julgamento entrou fase dos debates. Nesta etapa, a defesa e a acusação tiveram 1h30 para apresentar seus argumentos. Depois, houve outro intervalo, iniciou o julgamento do júri e a divulgação da sentença.
O policial militar Leandro Henrique Pereira é acusado de matar duas pessoas e ferir outras três em show sertanejo em Piracicaba (SP), em novembro de 2022.
Reprodução/EPTV
Uma das três vítimas que ficaram feridas pelos disparos não compareceu ao julgamento. Outras seis testemunhas foram dispensadas pela defesa e pela acusação.
O réu estava detido no Presídio Militar Romão Gomes (PMRG), na capital paulista. Estudantes de cursos de direito acompanharam o julgamento.
Estudantes de cursos de direito fazem fila e aguardam entrada para acompanhar julgamento no Fórum de Piracicaba
Edijan Del Santo/EPTV
'Que a justiça dos homens seja feita', diz irmã de vítima
Camila Alves Cardoso, irmã do jovem Leonardo Cardoso, uma das vítimas mortas no evento, disse antes do júri, em entrevista à EPTV, afiliada da Globo para a região, que esperava justiça. Ela falou também dos sentimentos que os adiamentos nos processos e do próprio julgamento provocam na família.
"Espero que justiça seja feita. Meu irmão não merecia ter falecido da forma como foi. Espero que, hoje, a gente saia daqui com um pouco de dignidade. Não vai trazer meu irmão de volta. Mas, esperamos que a justiça dos homens seja feita hoje. Toda vez que esse julgamento reaparece, a gente revive aquele dia de novo e todos os traumas voltam. É muito difícil para minha família", disse.
Família de jovem Leonardo Cardoso, morto em show sertaneja, participa de julgamento no Fórum de Piracicaba
Edijan Del Santo/EPTV
'Legítima defesa', diz advogado de PM
O advogado do PM julgado nesta quarta-feira (11) afirmou que provaria que o policial agiu em legítima defesa.
"Que hoje se faça justiça. Vamos comprovar aos senhores jurados que Leandro agiu em legítima defesa e que os disparos que atingiram as outras vítimas, inclusive, não são provenientes dele", disse o advogado Renato Soares.
Adiamentos
No total, o julgamento do caso já foi adiado sete vezes, incluindo suspensões causadas por conflitos no plenário.
Em março de 2025, o júri foi suspenso até o julgamento de um habeas corpus ajuizado pela defesa. No documento, um dos advogados de defesa relembra que se desentendeu com o promotor do caso durante a sessão do júri anterior, e que os defensores do réu abandonaram o plenário.
Por isso, o juiz do caso declarou o réu indefeso e determinou a instauração de inquérito policial contra os advogados por desacato, além de outras medidas administrativas.
Fórum Estadual de Piracicaba.
Edijan Del Santo/EPTV
A defesa afirmou, então, que o juiz do caso teria suposta inimizade com o acusado e seus advogados e pediu que o magistrado fosse declarado suspeito para julgar o caso.
Em junho de 2025, a Justiça trocou o juiz responsável pelo processo e remarcou a data do julgamento.
Já em setembro de 2024, o júri foi cancelado após uma discussão envolvendo a proibição de gravações da sessão, quando a defesa insistiu em registrar o julgamento com aparelhos particulares, contrariando ordem judicial, o que gerou tumulto e obrigou o juiz a acionar a Polícia Militar.
Intervenção em briga e 'empurra-empurra'
Confusão em festa sertaneja termina com dois mortos e um baleado em Piracicaba
Divulgação
De acordo com a denúncia do MP, os disparos foram realizados após Leonardo, uma das vítimas, intervir em uma briga entre o PM de 25 anos, um amigo seu e uma terceira pessoa.
Já a Divisão Especializada em Investigações Criminais (Deic) concluiu que o motivo dos disparos foi um desentendimento após um empurra-empurra no show. Ao finalizar a investigação, a corporação pediu a prisão preventiva do policial militar que efetuou os tiros.
Por ser integrante de uma força de segurança pública, a Polícia Militar, o acusado tinha porte de arma em qualquer lugar de todo o território nacional.
Vídeo mostra momento de disparos que mataram dois durante show em Piracicaba
Imagens publicadas em redes sociais mostram o momento dos tiros e quando começa a confusão e correria no evento - veja no vídeo acima.
Nas imagens, é possível ver os dois artistas no palco, cantando o refrão de uma música. Em seguida, ouvem-se os barulhos dos tiros. Em um dos vídeos, uma pessoa que estava no local identifica o som: "É tiro, é tiro". Em seguida, começa uma confusão e a imagem é encerrada.
O que diz a defesa?
Um dos advogados do réu informou ao g1 que um parecer feito por peritos particulares que a defesa anexou ao processo aponta que Pereira não foi autor de todos os disparos, "com base em trajetórias e confrontos balísticos".
Também sustentou que o policial atirou apenas contra Leonardo, que estaria tentando tirar a arma dele. Foi, ainda, apresentada a tese de que havia um outro atirador no local, que não foi identificado pelas investigações.
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