Estudo encontra 12 antibióticos no Rio Piracicaba e indica planta que pode reduzir impacto para saúde de peixes
11/04/2026
(Foto: Reprodução) Pesquisa da USP identifica 12 tipos de antibiótico no Rio Piracicaba
Um estudo do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP) identificou 12 tipos de antibióticos em níveis elevados na água do Rio Piracicaba e apontou que uma planta aquática tem potencial para auxiliar na retirada de parte dessas substâncias.
🐟 O cloranfenicol, um dos principais antibióticos identificados, pode causar danos ao DNA dos peixes. Além disso, é um medicamento proibido no país para produção animal e sua presença pode causar riscos à saúde humana, segundo a pesquisa.
A presença da planta aquática, chamada Salvinia auriculata, reduziu drasticamente esses danos genéticos nos peixes expostos, trazendo-os a níveis próximos aos de um ambiente limpo.
Apesar de ser considerada praga em outros contextos, a planta apresentou resultados promissores no estudo. As conclusões foram publicadas pela revista Environmental Sciences Europe.
"A presença de antibióticos na água do Rio Piracicaba, ou em outros rios, pode desencadear o surgimento de superbactérias que, com o tempo, ficam resistentes aos antibióticos e, quando a pessoa adoece, não consegue se curar de uma doença que, teoricamente, seria simples", explicou o professor Valdemar Tornisielo, um dos autores do estudo.
👀 O que você vai ver nessa reportagem?
Antibióticos encontrados
Uso de energia nuclear 'rastreável'
Como a planta 'limpa' a água?
Impacto para saúde dos peixes
Viabilidade
Antiobióticos encontrados
Estudo encontra 12 antibióticos no Rio Piracicaba e indica planta que pode reduzir impacto para saúde de peixes
Reprodução/EPTV
O monitoramento feito pelos pesquisadores buscou responder três perguntas principais:
como e quanto o peixe absorve dessas substâncias na alimentação. Para isso, foi usada uma ração contaminada propositalmente para o teste;
qual o nível de dano que esses antibióticos causam ao DNA dos peixes;
até que ponto a presença da planta consegue reduzir a concentração dos medicamentos na água e proteger os peixes.
As coletas ocorreram na barragem de Santa Maria da Serra (SP), região que recebe esgoto urbano, efluentes domésticos, atividades de aquicultura, criação de suínos e escoamento da agricultura.
A equipe primeiro coletou material diretamente no rio para análise via cromatografia (técnica usada para quantificar os antibióticos) e, com base nesses resultados reais, montou os experimentos controlados com produtos radiomarcados no laboratório.
💊 Ao todo, foram identificados 12 antibióticos: tetraciclina (TTC), oxitetraciclina (OTC), clortetraciclina (CTC), enrofloxacina (EFX), ciprofloxacina (CFX), sarafloxacina (SAR), norfloxacina (NFX), cloranfenicol (CAP), florfenicol (FF), sulfadimetoxina (SDM), sulfatiazol (STZ) e sulfametazina (SMZ).
Os pesquisadores selecionaram duas substâncias como alvos centrais devido à relevância ambiental e sanitária:
Enrofloxacina: medicamento amplamente utilizado tanto na medicina humana quanto na veterinária (incluindo a criação de peixes)
Cloranfenicol: embora seu uso seja proibido em animais de produção no Brasil devido aos riscos de toxicidade, ele ainda é usado em humanos e serve como um marcador histórico de contaminação persistente
Os pesquisadores notaram que, no período chuvoso, a maioria dos antibióticos estava abaixo do limite de detecção. Já na estiagem, os contaminantes ficaram mais concentrados por conta do menor volume de água.
Uso de energia nuclear 'rastreável'
Um dos pontos centrais do experimento foi o uso de moléculas radiomarcadas com carbono-14. Essa técnica permitiu aos pesquisadores rastrear o destino do antibiótico — se permanecia na água, se era absorvido pela raiz da planta ou pelo tecido dos peixes.
A pesquisa recebe financiamento da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), que incentiva o uso de produtos radioativos para benefícios ao meio ambiente e à população.
🔍O carbono-14 é um isótopo radioativo natural do carbono essencial para a datação de materiais arqueológicos. Ele é gerado em reatores nucleares e usado em baterias de longa duração e datação arqueológica.
Com esse uso, os pesquisadores conseguiram criar imagens chamadas autorradiografias. Essas imagens funcionam como um mapa visual que mostra, por meio de cores, onde a substância está mais concentrada, como nas raízes das plantas ou em tecidos específicos dos peixes.
"Nós utilizamos o carbono-14, que é um produto já bastante conhecido. As moléculas são produzidas com esse carbono-14, de maneira que dá para a gente acompanhar todo o processo do antibiótico dentro do peixe, dentro da planta, dá para a gente quantificar cada um. O carbono-14 é um material de baixa energia, então a gente pode manipular sem problemas nenhum de saúde, não tem problema nenhum", explicou Tornisielo.
Só tem antibiótico?
Estudo encontra 12 antibióticos no Rio Piracicaba e indica planta que pode reduzir impacto para saúde de peixes
Reprodução/EPTV
O professor Valdemar Tornisielo destacou que o rio não contém apenas antibióticos, mas diversos pesticidas, o que motivou a busca por produtos naturais para retirar esses poluentes da água.
"Nós não temos somente antibióticos na água. Nós fizemos análise da água do rio Piracicaba e encontramos vários pesticidas presentes na água do rio. Isso é ruim para as pessoas e para os animais, e pode prejudicar uma série de atividades. Então, a nossa preocupação é tentar ajudar a resolver esses problemas", explicou o pesquisador.
Como a planta 'limpa' a água?
A Salvinia auriculata é amplamente usada em aquários e lagos ornamentais por filtrar nutrientes e abrigar peixes, mas pode se tornar uma espécie invasora, segundo o pesquisador.
"Essa planta é muito comum na América do Sul. Ela aparece principalmente em lagos. Então ela gosta de local de água parada, ela tem um sistema radicular muito eficiente que acaba puxando não só os antibióticos, mas também metais pesados que é muito comum na água do rio Piracicaba, então ela é uma planta muito propícia para ser usada para remediação", explicou Tornisielo.
A Salvinia auriculata demonstrou níveis de eficiência muito distintos dependendo do antibiótico analisado:
Enrofloxacina: a remoção foi extremamente eficaz, com a retirada de mais de 95% do composto da água em poucos dias. Sua meia-vida no ambiente caiu para cerca de dois a três dias na presença da planta.
Cloranfenicol: mostrou-se muito mais persistente. A planta conseguiu remover entre 30% e 45% da substância, com uma meia-vida bem mais longa, entre 16 e 20 dias.
Itálo Vieira, um dos pesquisadores de Piracicaba envolvidos no estudo, destacou que a enrofloxacina foi mais facilmente remediada pela planta do que o cloranfenicol, possivelmente devido às propriedades físico-químicas da cloranfenicol e sua interação com a água.
"A enrofloxacina conseguiu ser mais remediada e ser mais absorvida pela planta em comparação com clorofenicol, que é uma molécula que, teoricamente, tentamos justificar pelas propriedades físico-químicas dela, justamente a interação dela com a água, talvez possa ser um dos fatores que impediu que a planta acumulasse tanto quanto a enrofloxacina", explicou.
Tanto os dados quantitativos quanto as imagens de autorradiografia confirmaram aos pesquisadores que os antibióticos se concentram majoritariamente nas raízes da planta. Esse contato direto com sistema de raízes é o principal mecanismo de limpeza de antibióticos.
"A partir dos experimentos, a gente conseguiu ter uma conclusão de que a parte que mais absorve a molécula é a parte da raiz, que é justamente quem está em maior contato com a água. Claro que a planta pode sofrer algum tipo de translocação", explicou Itálo.
Embora a planta seja uma solução de baixo custo e natural, não é uma solução definitiva. O manejo da biomassa é essencial, pois, se a planta contaminada não for removida, ela pode reintroduzir os poluentes no ambiente.
Além disso, por ser uma espécie invasora, seu crescimento excessivo pode bloquear a luz solar e prejudicar o ecossistema aquático.
Impacto para saúde dos peixes
O impacto da poluição por antibióticos nos peixes do Rio Piracicaba — especificamente o lambari, espécie principal nas atividades de pesca do rio — foi um dos pilares centrais da pesquisa.
⚠️ Um dos achados mais críticos dos pesquisadores foi a presença de cloranfenicol em lambaris consumidos localmente. Este antibiótico é proibido para animais de produção no Brasil devido à sua alta toxicidade e sua detecção indica uma via de exposição humana indireta pela alimentação.
Além disso, o cloranfenicol demonstrou ser altamente genotóxico, causando um aumento significativo de danos ao DNA dos peixes, com a presença de micronúcleos e anomalias nucleares.
Para compreender a dinâmica da bioacumulação, os peixes foram expostos aos fármacos por sete dias, inclusive pela ração contaminada, para entender como eles absorviam e excretavam essas substâncias.
"A gente faz a introdução dessa molécula via alimentação, justamente pelo processo de bioacumulação, e aí a gente contamina a ração e expõe esses peixes durante a alimentação, durante esses dias de exposição", explicou Itálo Vieira, que participou do estudo.
Os experimentos mostraram que como o peixe lida com o antibiótico depende do tipo de substância que ele é exposto:
Cloranfenicol: apresentou um alto fator de bioconcentração, o que significa que o peixe retém muito mais a substância em seus tecidos. Sua eliminação é extremamente lenta, com uma meia-vida superior a 90 dias. Isso é preocupante, pois a substância foi detectada em peixes coletados com pescadores locais, indicando risco para o consumo humano.
Enrofloxacina: Teve um comportamento oposto, com baixo fator de bioconcentração e eliminação mais rápida, apresentando uma meia-vida de cerca de 21 dias
De acordo com Ítalo Vieira, a presença das plantas reduziu a bioacumulação nos peixes, pois a planta conseguia absorver o fármaco de forma muito mais eficiente, deixando menos poluente disponível na água para o animal.
"Quando a gente expõe justamente as plantas, a gente percebeu que reduzia a absorção. A gente diz que as plantas conseguiam absorver bem mais o fármaco do que o peixe, então, ficava menos disponível na água para o peixe conseguir se bioacumular", explicou.
A presença da planta no sistema reduziu significativamente os danos ao DNA dos peixes causados pelo cloranfenicol.
No entanto, essa proteção não foi observada para a enrofloxacina, sugerindo que os subprodutos desse antibiótico podem continuar sendo tóxicos mesmo após a ação da planta.
🧽 Entretanto, os pesquisadores concluíram que usar plantas como "esponjas" não é uma tarefa simples, pois a macrófita pode alterar a forma química do poluente, tornando-o, em alguns casos, mais fácil de ser absorvido pelo peixe.
Viabilidade
Apesar dos desafios, os resultados foram considerados promissores pelos pesquisadores para a criação de sistemas de tratamento de baixo custo baseados na natureza — especialmente úteis onde tecnologias avançadas são inviáveis financeiramente.
Para o professor, os resultados indicam que é possível pensar na construção de sistemas de tratamento que utilizem plantas aquáticas para retirar poluentes da água.
Ele conclui que a pesquisa trouxe um resultado positivo ao oferecer soluções ambientais de baixo custo, permitindo um melhor entendimento do funcionamento integrado dos ecossistemas aquáticos para mitigar impactos humanos
"Os riscos existem, como qualquer outra substância utilizada pelo homem, riscos existem. O que nós temos que fazer é tentar acessar esses riscos e remediar. Os resultados que obtivemos são bastante promissores e indicam que a gente pode pensar, talvez, em construir sistemas que utilizem plantas aquáticas para retirar esses poluentes da água", explicou.
Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Piracicaba