Entre a violência e a resistência, trabalho vira ferramenta de sobrevivência para mulheres trans no interior de SP

  • 29/01/2026
(Foto: Reprodução)
Moradora de Presidente Prudente (SP) já exerceu as funções de atendente, vendedora e freelancer Julia Oliveira/Arquivo pessoal Nesta quarta-feira (29) é celebrado o Dia Nacional da Visibilidade Trans. O Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking de países que mais matam pessoas transexuais e travestis no mundo, com 80 assassinatos registrados em 2025, segundo a última edição do dossiê feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), lançado nesta semana. Diante de uma realidade dura como essa, a história de mulheres como Julia Oliveira, de 43 anos, destaca a resiliência de uma comunidade que existe, cresce e luta diariamente por visibilidade, respeito e inclusão. 📲 Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp Nascida em Regente Feijó e criada em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, Julia conta que, desde a infância, sentia que algo "estava fora do lugar", mas só conseguiu dar nome a essa sensação anos depois. Aos 18 anos, passou a se identificar como homossexual; aos 23, ingressou no universo da arte drag; e, aos 26, passou a se reconhecer como mulher trans. Foi por meio da drag que encontrou, pela primeira vez, uma possibilidade concreta de existir no feminino. "Foi meu contato com a arte e a persona feminina", relata em entrevista ao g1 e à TV TEM. Julia se apresenta, muitas vezes, como travesti, uma escolha política. Para ela, usar o termo é uma forma de ressignificar uma palavra historicamente usada de maneira ofensiva e reafirmar a trajetória de resistência de quem veio antes. "Foi uma palavra criada de forma ofensiva e, hoje, representa história e resistência", afirma. Apesar do acolhimento da mãe desde o início da transição, o processo foi complexo dentro da família e entre amigos próximos, que precisaram reaprender a se relacionar com a mesma pessoa em um novo corpo. "Tiveram que aprender a conviver com a mesma essência em uma pessoa diferente", diz. Julia começou o tratamento hormonal em 2008, dando início à sua transição Julia Oliveira/Arquivo pessoal Desafios profissionais No mercado de trabalho, no entanto, os desafios se mostraram ainda mais duros. Graduada em turismo, Julia passou por diferentes áreas e cidades, atuando como autônoma e trabalhando em setores como telemarketing, salões de beleza e restaurantes. Em uma dessas experiências, em Santa Catarina, viveu um episódio de transfobia. Após mostrar ao patrão um vídeo de uma de suas performances como drag, ele exibiu a apresentação em uma televisão, durante o jantar dos funcionários, em uma tentativa de constrangê-la. "A intenção era me envergonhar, mas eu comecei a falar do vídeo com empolgação e o desconforto acabou sendo dele", relembra. Ainda assim, o ambiente hostil teve impactos profundos. O desrespeito ao nome social, a dificuldade para utilizar o banheiro e o clima constante de tensão fizeram com que Julia adoecesse emocionalmente. Em determinado momento, ela chegou a cogitar interromper a própria transição como forma de facilitar a permanência no mercado de trabalho. "Pensei em parar com o tratamento hormonal, porque, para a empregabilidade, seria mais fácil", conta. A ideia, porém, foi descartada ao perceber que não era possível negar quem ela era. Para Julia, Olivia Becker é outra pessoa e a drag representa seu lado artístico Julia Oliveira/Arquivo pessoal O acesso ao emprego formal, segundo Julia, é decisivo para garantir direitos básicos como moradia, alimentação e saúde, e também para romper o estigma histórico que associa travestis e mulheres trans quase exclusivamente à prostituição. Segundo dados de 2023 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apenas 25% das pessoas trans no Brasil têm emprego formal, realidade que empurra muitas para a informalidade ou para a exclusão social. Hoje, trabalhando no comércio em Presidente Prudente, Julia diz que ainda percebe olhares e comentários velados, mas reconhece a importância de ocupar esses espaços. "Não costumo cruzar com nenhuma pessoa trans nos corredores do shopping que trabalho", afirma. Initial plugin text 🏳️‍🌈 Drag como linguagem Paralelamente à trajetória no trabalho formal, a arte drag segue como parte central de sua vida. Sob o nome artístico Olivia Baker, uma homenagem à avó materna, Julia se apresenta há mais de duas décadas. No interior, no entanto, os espaços para performances se tornaram mais escassos, ficando concentrados em eventos pontuais, como a Parada LGBTQIA+ da cidade. Ainda assim, ela define a arte como um território de liberdade e reconstrução. Olivia Becker durante uma performance no palco da Parada LGBTQIA+ 2025 em Prudente Em entrevista ao podcast "Travessias", Julia relatou mais um desafio enfrentado em 2024: ela foi atacada por uma cachorra e precisou levar cerca de 50 pontos no rosto. Além da dor física, teve de lidar com o impacto psicológico e com comentários ofensivos recebidos após o ocorrido. Uma vaquinha online ajudou a custear o tratamento e evidenciou, mais uma vez, a força da rede de apoio construída ao longo dos anos. Recentemente, Julia participou de um curso de recursos humanos no Senac, durante o qual desenvolveu um projeto sobre empregabilidade trans. A experiência reacendeu o desejo de, no futuro, atuar como educadora. "Ver que há instituições que acolhem e que dão oportunidade, que reconhecem isso é importante. Dão fôlego para a gente", afirma. Para pessoas trans que buscam oportunidades de trabalho, o site TransEmpregos reúne vagas em todo o Brasil oferecidas por empresas com políticas de inclusão. A plataforma conecta candidatos a oportunidades no mercado formal e pode ser acessada de forma gratuita. LEIA TAMBÉM: Fotógrafa encontra na profissão o caminho para lidar com a depressão no interior de SP: 'Recomeçar minha história' Projeto no interior de SP oferece musculação gratuita para pessoas com diagnóstico de depressão Aos 12 anos, vice-campeã brasileira que venceu depressão através do Jiu-Jitsu faz rifas para disputar campeonatos *Colaborou sob supervisão de Stephanie Fonseca Veja mais notícias no g1 Presidente Prudente e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-e-regiao/noticia/2026/01/29/entre-a-violencia-e-a-resistencia-trabalho-vira-ferramenta-de-sobrevivencia-para-mulheres-trans-no-interior-de-sp.ghtml


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