Empresa de ônibus usada para lavar dinheiro do PCC recebeu R$ 180 milhões de subsídios do poder público só no 1° semestre, diz investigação

  • 25/06/2026
(Foto: Reprodução)
Operação do Deic e Gaeco mira empresa de ônibus e vereador de SP A Transunião, empresa de ônibus investigada por lavar dinheiro da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), recebeu R$ 180 milhões de subsídios do poder público somente no primeiro semestre, segundo o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo (Gaeco). Nesta quinta-feira (25), a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) deflagraram a Operação Última Parada contra o esquema de lavagem de dinheiro no transporte público, envolvendo a Transunião. Os agentes cumprem cinco mandados de prisão temporária e 103 de busca e apreensão. Em coletiva de imprensa, Gakiya falou sobre a infiltração do crime organizado, em especial o PCC, na economia formal e nos Três Poderes. "É uma empresa cuja direção foi capturada pelo crime organizado, pelo PCC, e também com um braço dentro do Poder Legislativo municipal. Infelizmente tivemos um vereador preso hoje", disse. "O crime organizado há muito está infiltrado nos Poderes do Estado. E quando eu falo nos Três Poderes do Estado, isso não quer dizer que o PCC, por exemplo, quer se tornar um partido político, um prefeito, um governador, nem mesmo um vereador ou deputado. Mas ele quer participar de uma fatia dos negócios públicos, de licitações milionárias", explica Gakiya. O promotor também afirmou que é necessário reforçar os mecanismos de controle sobre as empresas que operam o transporte público, um "compliance antimáfia". Segundo ele, exigências de capital impostas ao setor acabaram abrindo espaço para a entrada de recursos do crime organizado em empresas que não tinham condições financeiras de atender aos requisitos. "A medida para melhorar as condições dos cooperados demandou aporte de capital e sede própria, mas os cooperados não tinham recursos. Aí surge o crime organizado através de pessoas interpostas, injeta dinheiro e depois vem cobrar a conta", afirmou. Gakiya citou a Transunião como exemplo dessa infiltração e destacou que a empresa recebeu R$ 180 milhões em subsídios da Prefeitura de São Paulo apenas nos cinco primeiros meses deste ano. Segundo ele, a companhia também estava incluída em um processo financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a renovação da frota e substituição de ônibus movidos a diesel por veículos elétricos. O delegado Ronaldo Sayeg, diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), afirmou que a investigação identificou indícios de que recursos do PCC foram usados para inflar artificialmente o patrimônio da Transunião. "Eles realizavam o aumento patrimonial fictício da empresa, de R$ 100 mil para R$ 50 milhões. Isso evidentemente injetado com o dinheiro do crime organizado, para depois, por meio de adiantamento de despesas, fluir esse dinheiro para empresas do grupo para depois o processo de lavagem voltar para os criminosos", disse o delegado. Promotor Lincoln Gakiya em coletiva de imprensa sobre a Operação Última Parada. Reprodução/TV Globo Até a última atualização desta reportagem, três pessoas já haviam sido presas: o vereador da capital Senival Moura, do PT, Jair Ramos de Freitas ("Cachorrão"), diretor informal da empresa, e Devanil de Souza Nascimento ("Sapo"), motorista e homem de confiança do vereador. Também são alvo de mandados de prisão: Lourival Monário ("Orelha"): atual presidente da Transunião, acusado de ser nomeado pelo PCC para garantir o escoamento de recursos ilícitos; Leonel Moreira Martins ("Cabeça Branca"): supervisor operacional que atuava como o interlocutor direto do PCC dentro da empresa, transmitindo ordens da facção. Números da operação: Bloqueio de 117 veículos e 3 embarcações; Sequestro de 21 imóveis; Bloqueio de R$ 194.457.851,90 em contas dos alvos. Os investigados são acusados de organização criminosa, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações públicas. Com a operação, a diretoria da Transunião foi afastada e a Prefeitura de São Paulo, comunicada para que sejam tomadas as medidas administrativas cabíveis. Em nota, a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT) e a SPTrans informam que "a operação dos ônibus da empresa Transunião segue funcionando, com a frota atendendo normalmente as linhas sob sua responsabilidade e sem prejuízo ao atendimento da população. A Administração Municipal aguarda a notificação oficial da decisão judicial para avaliar seus termos e definir as providências necessárias a partir de agora". O prefeito Ricardo Nunes (MDB) informou estar acompanhando os desdobramentos da operação "ao mesmo tempo em que temos toda a atenção para que o servico funcione plenamente, o que tem ocorrido normalmente desde as primeiras horas da manhã". A intenção de Nunes é fazer a intervenção na Transunião. O prefeito ponderou, no entanto, que precisa saber dos detalhes da decisão do juiz que ordenou a operação desta quinta: "Quero fazer a intervenção, só preciso tomar conhecimento do despacho do juiz". "Gostaria de lembrar que assinei dois decretos em 2024 para romper contratos com uma empresa de ônibus que teria relação com o crime organizado. Nossa gestão mantém o compromisso de oferecer o melhor servico para os 7 milhões de passageiros diariamente na cidade. As medidas cabíveis em relacao à empresa Transunião serão tomadas assim que a administração for notificada pelos órgãos competentes", completou. Segundo os investigadores, Lourival está em Roma, na Itália. As autoridades vão pedir que o nome dele seja incluído na Difusão Vermelha, a lista de procurados da Interpol. Os mandados estão sendo cumpridos em endereços da cidade de São Paulo, da região metropolitana e do município de Extrema (MG). A ação é conduzida pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP. Ônibus da Transunião; foto de 2022 Abraão Cruz/TV Globo De acordo com dados do SPUrbanuss, o sindicato das empresas de ônibus da capital, a Transunião opera 51 linhas de ônibus e transporta 389 mil passageiros por dia, atuando principalmente na Zona Leste da capital paulista. Para cortar a influência dos investigados, a Justiça determinou o afastamento imediato de todos os atuais diretores e administradores da Transunião. Como o transporte de passageiros é um serviço essencial e não pode parar, a SPTrans foi notificada. Agora, o município precisa garantir que a frota continue rodando, seja decretando uma intervenção direta na empresa ou repassando as linhas da Transunião para outras viações da cidade. Morte de ex-presidente e o início da investigação O vereador Senival Moura, do PT, durante sessão de CPI na Câmara Municipal de São Paulo. Divulgação/Rede Câmara O inquérito que desencadeou a ação desta quinta começou a partir da investigação do assassinato de Adauto Soares Jorge, antigo presidente da Transunião, executado em 2020. Documentos manuscritos conhecidos como "salves" do PCC revelaram que Adauto e o vereador Senival de Moura – apontado como o verdadeiro controlador da empresa – haviam sido condenados à morte por supostos desvios de valores da organização criminosa. "A facção teria descoberto, então, que Adauto desviava dinheiro da empresa para subsidiar uma espécie de 'caixa dois' para as eleições de 2020, privilegiando diretamente Senival em sua campanha à reeleição como vereador de São Paulo", diz trecho da manifestação do MP. As investigações apontam que Senival concordou com a execução de seu braço-direito e acabou sendo "perdoado" em razão de sua influência política e capacidade de ressarcir o prejuízo financeiro causado à facção. Após o crime, o PCC teria nomeado Lourival de França Monário (vulgo "Orelha" ou "Lori") e Jair Ramos de Freitas (vulgo "Cachorrão") para assumir os cargos de presidente e diretor da Transunião e garantir o fluxo financeiro para a facção. Jair Ramos de Freitas é, inclusive, apontado pela polícia como o executor dos disparos que mataram Adauto. Evidências reunidas pelas autoridades a partir do crime demonstram que a viação — que apenas no ano de 2025 recebeu mais de R$ 300 milhões do sistema de transportes paulistano — vinha sendo sistematicamente utilizada como uma engrenagem de lavagem de dinheiro do crime organizado. Como funcionava o esquema De acordo com o MP-SP e a Polícia Civil, a Transunião contava com a existência de um núcleo paralelo, que tomava as decisões operacionais da empresa e autorizava a transferência de grandes valores para criminosos ligados ao PCC. A fraude atingiu até mesmo a constituição da empresa. A investigação aponta que a mudança societária da companhia teve origem criminosa: o capital social saltou de pouco mais de R$ 100 mil para mais de R$ 50 milhões sem que a origem desse dinheiro ficasse comprovada. Essa elevação fraudulenta do capital social permitiu à Transunião participar e vencer licitações da Prefeitura de São Paulo para operar linhas do transporte público. Bloqueio milionário e bens apreendidos A pedido da polícia e do MP-SP, a Justiça determinou o sequestro de uma fortuna ligada aos investigados e à companhia. A lista de bens bloqueados inclui: R$ 194 milhões em contas bancárias 117 veículos 21 imóveis 3 embarcações Conexões com a máfia italiana Os investigadores também constataram que o esquema usado pela Transunião tem ligação com outras grandes investigações, como a Carbono Oculto, a Vérnix e a Operação Mafiusi. Esta última, conduzida pela Polícia Federal no Paraná, focou no tráfico internacional de drogas e expôs a ligação direta entre o PCC e a máfia italiana 'Ndrangheta. A ofensiva consolida as ações recentes contra a infiltração de facções nos contratos públicos da capital. Em 2024, o Gaeco deflagrou a Operação Fim da Linha, que desarticulou dois grupos suspeitos de lavar dinheiro de tráfico através da Upbus e da Transwolff. Juntas, essas empresas transportavam cerca de 700 mil passageiros por dia e, apenas em 2023, receberam mais de R$ 800 milhões em remuneração da prefeitura. Dinheiro apreendido pela Operação Última Parada Polícia Civil de SP Objetos apreendidos na Operação Última Parada Polícia Civil de SP Objetos apreendidos na Operação Última Parada Polícia Civil de SP

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/06/25/empresa-de-onibus-usada-para-lavar-dinheiro-do-pcc-recebeu-r-180-milhoes-de-subsidios-do-poder-publico-so-no-1-semestre-diz-investigacao.ghtml


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