Diretora travesti atua há quase 30 anos na educação infantil de Avaré e fala sobre combate ao preconceito: 'Escola é lugar de transformar a sociedade'

  • 01/03/2026
(Foto: Reprodução)
Celso é fortemente ativa nas redes sociais e publica vídeos no CEI onde é diretora "Muitas das vezes, as pessoas pegam a imagem da travesti e imaginam ela marginalizada. A travesti na delegacia. O meu livro vai se chamar 'Travesti na Diretoria'. A gente veio para somar, para mudar. Nosso maior patrimônio é a educação." A fala é de Celso Melo, que trabalha como diretora em um Centro de Educação Infantil (CEI) de Avaré, no interior de São Paulo. Aos 49 anos, ela alega ser a primeira diretora de educação infantil travesti do país. No Dia Mundial da Discriminação Zero, celebrado neste domingo (1º), o g1 conta a história de vida de quem, por meio do ensino às crianças, se tornou símbolo de resistência e de crença em um mundo melhor. 📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp Celso relata que se enxerga como uma pessoa "diferente" desde criança. Trabalhando na área da educação há quase 30 anos, ela afirma que se identifica como travesti por ser um termo voltado à luta e combate ao preconceito. "Eu respiro educação desde sempre. Eu não me considero uma mulher trans, apesar de ser mais confortável. Eu sou uma travesti. A travesti é autêntica, sem máscaras, eu sou da luta das travestis. Em 29 anos de magistério, eu combato diligentemente o preconceito e suas facetas. Não é fácil, ainda mais no interior do país, onde existe fundamentalismo e conservadorismo", desabafa. Embora faça parte da comunidade LGBTIQIA+, Celso cresceu em um lar religioso e conservador. Filha adotiva, foi abandonada pela mãe biológica ainda recém-nascida, em Itapeva (SP), sua cidade natal. "Minha mãe pegou um bebê de um mês e meio - no caso, eu - e jogou na calçada. Disse que, se não buscassem até as 17h, iria matar. As pessoas viram aquela mulher oferecendo a criança e isso foi algo que repercutiu muito nos jornais da cidade à época. Uma senhorinha me adotou e eu cresci nesse lar, onde eu agradeço muito aos meus pais", relembra. Celso Melo, de Avaré (SP), se identifica como a primeira diretora de educação infantil travesti do país. Ela está na área da educação há 30 anos Arquivo pessoal 'Repulsa' ao conservadorismo Com base nas características dos pais adotivos, Celso afirma que desenvolveu uma certa "repulsa" ao conservadorismo. Foi justamente a convivência com atitudes das quais discordava que a motivou a seguir carreira na educação. "Aprendi coisas sobre o conservadorismo que não são interessantes. O conservadorismo aprisiona, mata, violenta, dilacera. Para estar na posição de conversar com todo mundo e em uma comunidade que me respeita, eu acabei passando por diversas formas de violência que, hoje, eu tiro de letra, mas precisei tirar muita força", lamenta. Na visão dela, trabalhar com educação infantil sendo travesti é um desafio em dose dupla que Celso enfrenta todos os dias. Estudiosa desde sempre, a sua maior preocupação é propagar o conhecimento para todos os alunos matriculados na instituição, na teoria e na prática. "O que incomoda o sistema é o ato de estudar, é o ato de adquirir conhecimento. É ele que te tira do obscurantismo e é isso que eu levo à sala de aula. Quando assumi a direção, uma das primeiras coisas que fiz foi transformar a biblioteca no coração da escola. Com a ajuda da comunidade, eu cerrei todas as estantes altas e deixei elas baixas, para que as crianças que ainda engatinham já consigam pegar um", revela. "Peguei uma prancheta e saí pelas ruas coletando verbinha para comprar um espelho. O primeiro passo de uma pessoa é ver o reflexo dela como cidadão. Se ela se enxerga, ela enxerga o outro, o coletivo, e cria empatia. Isso cria responsabilidade, solidariedade e coletividade. A escola é lugar de transformar a sociedade", completa. No entanto, Celso afirma que enfrentar as lutas em defesa da educação é um processo "custoso". Segundo ela, muitas pessoas estranham o fato de ela ser travesti e, ainda assim, ter optado por não alterar o nome de batismo. "Lutar pela educação envolve o nosso nome e, nisso, já causa estranheza às pessoas. Uma pessoa com nome de homem que sente-se mulher. Eu não mudei meu nome justamente como uma forma de resistência. É uma forma de protestar e resistir dentro da sociedade. Todos os dias, fico de pé na frente da escola mostrando que sou diligente e estou em contato com a comunidade", reforça. Celso trabalha na área da educação há 29 anos Reprodução/Redes sociais Ativa nas redes sociais Ativa nas redes sociais, Celso compartilha vídeos sobre a rotina do Centro de Educação Infantil "Carolina Puzzielo", em Avaré. Em uma das publicações, ela convida pais e responsáveis a participarem das reuniões presenciais na instituição. Assista ao vídeo no início da reportagem. Apesar da postura frequentemente aberta ao diálogo e do interesse pela vida dos alunos da unidade, Celso afirma que nem sempre foi bem recebida por pais e responsáveis. Ela relata ter enfrentado situações constrangedoras em algumas ocasiões. "Muitas pessoas não aceitam uma travesti em posição de poder. A travesti, para essas pessoas, está em um degrau social baixo, invisível, na precariedade da cidadania. Desde criança, eu decidi que não seria assim comigo. Eu escolhi cedo enfrentar muita coisa, mas eu lutaria, também, por uma alternativa de mudança. A única coisa que permite a ascensão social é o conhecimento", pontua. Ao todo, a diretora já registrou oito boletins de ocorrência por discriminação e afirma ter sido alvo de diversas ameaças. "Teve um pai que disse a mim que mudaria o filho de escola, porque jamais aceitaria uma diretora travesti na escola do filho. Disse para ele ficar à vontade, mas que a escola ficaria de portas abertas para ele. Ele ficou sentido, me ofendeu, mas a esposa conversou com ele. No fim, o aluno se formou aqui." Ao comparar os desafios que enfrenta atualmente com os do início da carreira, há 30 anos, Celso avalia que a sociedade passou por transformações, ainda que parciais. Apesar dos avanços, ela ressalta as estatísticas relacionadas à expectativa de vida de pessoas trans e travestis no Brasil. "É lamentável saber que as trans e travestis não passam dos 30 anos em nosso país. O Brasil é o que mais mata essa parte da sociedade em todo o planeta. E eu quero fazer parte de uma mudança. Eu converso muito com o conselho de pais, que cresceu demais com o tempo. Isso é o princípio de gestão democrática e educação de qualidade. Nosso país perece de justiça socioeconômica", compartilha. A profissional afirma que é a primeira diretora de educação infantil travesti de todo o país. Afirmação que Celso diz ter buscado evidências para fazer, juntando registros e estatísticas. "Fucei as redes sociais, fiz pesquisas no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e não encontrei uma travesti em posição de direção. Achei uma que é coordenadora em Natal (RN), mas, na creche, não encontrei ninguém", afirma. O g1 entrou em contato com o Ministério da Educação (MEC) e questionou se há registro de outra diretora travesti no país, mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem. 'Escola é réplica da sociedade' Segundo Celso, fazer parte da comunidade LGBTQIA+ e atuar diretamente com crianças é uma combinação delicada. A diretora afirma que, no caso das travestis, ainda persiste um estigma injusto que associa a identidade de gênero à pedofilia, o que acaba afastando muitas delas do trabalho com essa faixa etária. "O preconceito de creche ainda é muito grande. Existe esse estigma enorme envolvendo travestis e pedofilia, o que é horroroso. A sociedade não quer nos ver em cargos desse tipo. Percebi que estava navegando sozinha. Mas, quando o trabalho é bem feito, as coisas vão se espalhando e as pessoas contam às outras. O trabalho é feito com carinho, com vontade de educar e cuidar", explica. Mesmo após 30 anos, ela não planeja se afastar do magistério. Para o futuro, Celso espera que as instituições de ensino sejam cada vez mais plurais culturalmente, abrangendo todos os tipos de comunidades. "Nós precisamos que as escolas sejam abertas à diversidade, à pluralidade, à população em um geral. Senão, nós vamos criar pessoas invisibilizadas interna e externamente. A escola é uma réplica da sociedade, então, nós conseguimos transformar de dentro para fora. Quando a educação começa a entender nossa demanda interna e conhecer nossa vivência, tudo muda", finaliza. Celso é fortemente ativa nas redes sociais Arquivo pessoal Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/itapetininga-regiao/noticia/2026/03/01/diretora-do-interior-de-sp-se-identifica-como-a-primeira-travesti-a-frente-da-educacao-infantil-no-pais-escola-e-lugar-de-transformar-a-sociedade.ghtml


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