Carnaval de rua em SP mobiliza foliões que aprendem instrumentos e treinam perna de pau para os blocos

  • 04/02/2026
(Foto: Reprodução)
O psicólogo Arthur Gonçalves, que toca em bloco de carnaval de SP Sebastián Cauvet/Divulgação O carnaval de rua de São Paulo não nasce apenas nos dias de folia. Muito antes de os blocos ocuparem as ruas, há pessoas "comuns" que passam meses — e até anos — aprendendo habilidades específicas para fazer a festa acontecer. São foliões que deixam de apenas acompanhar os cortejos para se tornarem músicos, pernaltas, organizadores e referências visuais dos blocos. Aprender um instrumento do zero, fortalecer o corpo para horas seguidas de desfile ou enfrentar o medo de cair a metros do chão faz parte da rotina de quem decide participar do carnaval de forma ativa. Coordenadora de pós-produção no dia a dia, Jessica Cristina Marques hoje toca caixa em dois blocos paulistanos: o Bloco 77, de punk rock, e o Bloco Skaravana, de ska, pioneiro na introdução do estilo jamaicano ao carnaval de rua no Brasil. Mas o caminho até a bateria começou na arquibancada improvisada das ruas. “Eu sempre fui fã do Bloco 77, achava muito legal ver a galera tocando, se divertindo. Sempre tive vontade de participar”, conta. A oportunidade veio em 2019, quando se aproximou do Skaravana. Sem saber tocar nenhum instrumento, Jessica topou o desafio de explorar a habilidade musical nos ensaios do bloco. Blocos fazem ensaios e shows pra afinar detalhes e fazer caixa para o carnaval de rua de SP Ela começou pelo afoxé, um instrumento de percussão mais simples, aprendido às pressas para o carnaval de 2020. A vontade, porém, era tocar caixa. A pandemia interrompeu os planos, mas, com a retomada dos ensaios no fim de 2022, ela comprou o instrumento e passou a treinar para valer. Hoje, a rotina envolve dois ensaios semanais, de cerca de duas horas e meia cada, além de preparação física. “Tocar quatro horas seguidas no cortejo é bem exaustivo. Em dezembro, eu intensifico academia para aguentar”, diz. Segundo ela, a experiência de estar no meio do bloco transforma completamente a relação com o carnaval. “Quando você está tocando, a vibração é muito forte. Ver as pessoas felizes por causa da música que você está fazendo é uma sensação muito satisfatória. É uma festa popular, acessível, feita na rua.” Jessica Cristina Marques hoje toca caixa em dois blocos paulistanos: o Bloco 77, de punk rock, e o Bloco Skaravana. Arquivo pessoal Sopros, disciplina e fôlego A mesma curiosidade que levou Jessica à bateria fez o psicólogo Arthur Gonçalves buscar um instrumento de sopro. Admirador do carnaval desde criança, ele passou a frequentar blocos e fanfarras a partir de 2016, quando o carnaval paulistano começou a ganhar força. Segundo a Prefeitura de São Paulo, o carnaval daquele ano reuniu 1 milhão de pessoas e 335 blocos foram às ruas. Em menos de 10 anos, a festa em 2025 contou com 16 milhões de foliões com 601 blocos oficiais nas ruas. Para este ano, a estimativa é a de que 627 blocos desfilem para cerca de 16,5 milhões de foliões. “Eu olhava os músicos tocando e ficava admirado com a dedicação, com a organização, tudo movido pelo prazer de divertir uma multidão”, lembra. Em 2021, Arthur decidiu comprar um trombone e se inscrever na oficina de sopros da Espetacular Charanga do França. O começo foi difícil. “Nos primeiros meses, o máximo que eu conseguia era fazer barulho e irritar os vizinhos”, brinca. Com três meses de treino diário, conseguiu arranhar as primeiras notas; com seis meses, passou a tocar músicas completas. Hoje, ele estuda o instrumento de quatro a cinco vezes por semana durante o ano. Às vésperas do carnaval, o treino se intensifica. “Preciso manter a embocadura e os pulmões afiados”, explica. Para ele, tocar no meio do bloco é um estado de entrega total. “É um estado de flow. A noção de tempo se perde. Dezenas de instrumentos pulsando no meio da rua criam um delírio coletivo de prazer e adrenalina.” As pernaltas Patricia Maíssa (à esquerda), Heloisa Aun (no meio) e Ana Carolina Nascimento (à direita). Jorge Sato e arquivo pessoal Organização do cortejo Além da música, outra habilidade chama atenção nos blocos de rua: a perna de pau. A modalidade se consolidou como linguagem artística no teatro popular, especialmente entre os séculos XVIII e XIX. No carnaval, está ligada à tradição dos cortejos de rua e blocos alternativos. A artista e professora Patricia Maíssa, que dá aulas específicas para o carnaval, vê na prática muito mais do que um efeito visual. “A perna de pau encanta, traz identidade estética e energia para o bloco, mas também organiza”, explica. Do alto, os pernaltas ajudam a orientar o público, abrir caminhos e indicar o deslocamento do cortejo. Segundo ela, aprender a andar de perna de pau exige força muscular, resistência cardiovascular e consciência coletiva. "É uma atividade vulnerável. A gente está em cima de dois pauzinhos, em meio a uma multidão. Nunca estamos sozinhos.” O curso dura, em média, oito semanas, mas Patricia ressalta que o domínio real só vem com meses de prática e vivência nos blocos. “Andar na perna de pau não é ficar equilibrado. É subir guia, enfrentar buraco, dançar, performar e interagir com o público.” Segundo ela, a procura por aulas cresce após o carnaval, impulsionada pelo encantamento de quem vê os pernaltas nas ruas. “O carnaval é o motor dessa formação artística”, resume. Arthur toca trombone no carnaval de rua em São Paulo. Sebastián Cauvet/Divulgação Aluna de Patricia, Ana Carolina Nascimento levou cerca de seis meses de preparação até sair pela primeira vez na perna de pau. Para ela, a experiência preencheu um desejo antigo de viver o carnaval intensamente. “Eu sempre quis fazer parte de forma ativa, não só estar ali no meio”, conta. Do alto, ela passou a enxergar o bloco como um todo. “A gente vê briga, obstáculos, consegue ajudar a organizar.” Ana descreve a perna de pau como um alter-ego: “É como subir no palco. Vem uma energia diferente, uma brincadeira, uma interação com o público”. A segurança, segundo ela, vem com o tempo — e com aprender a cair. “A gente aprende a cair antes mesmo de subir. O medo existe, mas junto com uma segurança corporal.” Carnaval é compromisso A sensação é parecida para Heloisa Aun, outra aluna, que vê na perna de pau uma forma de pertencimento cultural. “Eu entendi que estou ajudando a construir a história do carnaval em São Paulo. Isso dá um orgulho danado.” Por trás dos desfiles que tomam as ruas, há meses de ensaio, preparo físico, estudo e trabalho coletivo. Músicos, pernaltas, organizadores e apoiadores formam uma engrenagem que vai muito além da diversão. “Estar em um bloco não é só entreter foliões”, resume o músico Arthur Gonçalves. “É pertencer a um coletivo dedicado a fazer pulsar a cultura brasileira.”

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/carnaval/2026/noticia/2026/02/04/carnaval-de-rua-em-sp-mobiliza-folioes-que-aprendem-instrumentos-e-treinam-perna-de-pau-para-os-blocos.ghtml


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