Ambulantes passam noites em condições precárias no Ibirapuera para garantir lugar em megablocos: 'quatro banheiros pra 200 pessoas'
20/02/2026
(Foto: Reprodução) Ambulantes enfrentam condições precárias no Ibirapuera para conseguir lugar em megablocos
Cerca de 200 vendedores ambulantes passaram duas noites do carnaval em um acampamento improvisado ao lado do Parque Ibirapuera, na Zona Sul de São Paulo, dormindo no chão e com apenas quatro banheiros químicos para dividir.
Segundo trabalhadores, a área foi disponibilizada pela prefeitura após confusões e denúncias de venda de vagas na fila do lado de fora. Dias antes da festa começar, centenas de pessoas já ocupavam as calçadas em frente aos portões para tentar garantir um lugar nos concorridos megablocos.
Ambulantes ouvidos pelo g1 nesta segunda-feira (16), antes do bloco da cantora Pabllo Vittar, disseram ter ficado cerca de 12 horas sem sair do recinto - das 19h às 7h, quando o circuito foi reaberto.
"Eles falaram que o nosso carrinho ia ser tomado e que a gente ia perder a vaga se saísse", disse Janine Rodrigues, sobre orientações recebidas de agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM).
A área reservada aos marreteiros - termo usado pelos próprios ambulantes em autorreferência - fica na rua Marechal Maurício Cardoso, próximo à entrada dos megablocos. A via está cercada por tapumes nas laterais e nas duas pontas havia equipes da GCM controlando entrada e saída nas noites de domingo (15) e segunda. Não havia qualquer estrutura de acomodação e os trabalhadores tiveram seus carrinhos cercados por gradis ao acessar o local.
Vendedores ambulantes passam noites ao relento para conseguir vaga no circuito de blocos de carnaval do Ibirapuera
Reprodução
Na segunda à noite, os banheiros químicos disponibilizados para os ambulantes credenciados estavam imundos. "São quatro banheiros para 200 pessoas. Está sujo há uma semana, tem até larvas dentro dos banheiros, eles não limpam para os ambulantes usarem", relatou Alice Percigili, que enviou vídeos mostrando as condições ao g1.
"A gente está aqui porque a gente precisa, porque se a gente não garantir o nosso, outras pessoas vão pegar o nosso lugar", diz Alice, criticando a organização da prefeitura e da Ambev, patrocinadora oficial do carnaval de São Paulo nesse ano. "A gente trabalhou o dia inteiro, está todo mundo molhado da chuva, com fome, querendo ir pra casa tomar um banho. Em sete anos que eu faço carnaval, nunca passei essa humilhação", acrescenta.
O g1 questionou à prefeitura se a fila preferencial para 200 ambulantes será repetida para os megablocos do pós-carnaval, mas não obteve resposta. Por meio de nota, a gestão Ricardo Nunes (MDB) disse que não recomenda a presença antecipada dos trabalhadores na região.
Segundo a Subprefeitura da Vila Mariana, um acampamento espontâneo bloqueou o acesso de caminhões ao circuito do Ibirapuera e "para segurança dos produtores do carnaval e dos próprios ambulantes, os vendedores passaram a ocupar o perímetro da Rua Marechal Maurício Cardoso que, apesar de tapumada, tem saída liberada".
Trabalhadores disseram que o circuito de megablocos do Ibirapuera se tornou o mais concorrido pelos marreteiros por concentrar a maioria das apresentações de artistas famosos, como Pabllo Vittar e Ivete Sangalo. Sem apoio, os ambulantes passaram a acampar nos arredores do parque por vários dias para garantir a entrada, já que segundo eles a prefeitura limitou a 1.200 por dia o número de vendedores autorizados a trabalhar no local.
Pablo Vittar leva multidão ao Ibirapuera, em São Paulo
Nesta quinta-feira (19), faltando dois dias para o pós-carnaval, dezenas de grupos de marreteiros já formavam fila na Avenida Pedro Álvares Cabral. A expectativa é faturar alto nos blocos do BaianaSystem, no sábado (21), e de Leo Santana, no domingo (22).
Depois de ajudar amigos a vender bebidas em outros carnavais, o corretor de imóveis Henrique Konstantinovas decidiu pegar firme nesse ano e investiu no próprio carrinho. O retorno, no entanto, não tem sido suficiente para compensar o desgaste. "Somos tratados como bicho. Não fosse essa humilhação, valeria a pena", disse ele, que tem lucrado em média R$ 400 por dia.
Na última sexta-feira (13), o Ministério Público do Trabalho recomendou que a Prefeitura de São Paulo e a Ambev adotem medidas para melhorar a estrutura oferecida aos ambulantes oficiais. O órgão pede que sejam criados centros de convivência, pontos de hidratação e banheiros separados por gênero com oferta de produtos de higiene pessoal.
O documento ainda destaca que o não cumprimento das providências solicitadas poderá levar à adoção de medidas administrativas e judiciais.