Amazônia tem áreas 3ºC mais quentes e com 25% menos chuva, aponta estudo
30/01/2026
(Foto: Reprodução) Estudo mostra como desmatamento já aumentou temperatura em 3°C
Fernando Frazão/Agência Brasil
Uma pesquisa publicada na revista Communications Earth & Environment revela que regiões da Amazônia com grande perda de vegetação nativa estão sofrendo um aumento de 3°C na temperatura durante a estação seca. Além do aquecimento, o estudo constatou uma redução de 25% na média de chuvas nessas áreas, quando comparadas às zonas mais preservadas.
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A Floresta Amazônica desempenha um papel essencial na regulação do clima, ajudando a resfriar a superfície e a manter o ciclo hidrológico funcionando. Entretanto, a pesquisa aponta que, quando a cobertura florestal cai para menos de 60%, esse equilíbrio se rompe.
Nessas condições de desmatamento avançado, foram observados, em média, 11 dias a menos de chuva. O impacto, portanto, não altera apenas o volume de água, mas também a sua distribuição ao longo do tempo.
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Segundo Marcus Silveira, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um dos autores do estudo, a floresta atua em duas frentes: reduz o aquecimento global absorvendo CO₂ e regula o clima regional ao refrescar o ambiente.
Isso ocorre principalmente devido ao processo de evapotranspiração, no qual a umidade liberada pelas árvores vai para a atmosfera. Ainda segundo o especialista, as florestas ajudam a regular a chuva até de regiões distantes, pois as correntes de ar transportam essa umidade, que será reciclada novamente como precipitação.
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Regiões críticas
A análise baseou-se em imagens de satélite que compararam áreas da Amazônia com diferentes níveis de cobertura vegetal. O objetivo foi avaliar como o desmatamento altera a temperatura e o regime pluvial, especialmente na estação seca.
O estudo identificou que áreas altamente desmatadas já apresentam características climáticas semelhantes às zonas de transição entre floresta e Cerrado (savana).
Os locais com situações mais críticas identificados são o sudeste do Pará, norte de Mato Grosso e Rondônia.
Nessas regiões, onde o clima já se aproxima das condições de savana, além do aumento de temperatura, registrou-se menos dias de chuva ao longo do ano. Segundo o estudo, são áreas que exigem prioridade na busca de soluções, como a restauração florestal.
Secas extremas recentes
O preço do desmatamento: estudo revela que derrubada da floresta fez chuva sumir em 25%
Bruno Kelly/Amazônia Real
Em 2023 e 2024, a Amazônia enfrentou secas expressivas, consideradas algumas das mais severas da história. Conforme o pesquisador, houve várias ondas de calor, com termômetros marcando índices muito acima do esperado para a época. Essas condições levaram a recordes de temperatura não observados há décadas em muitas regiões amazônicas.
Marcus explica que o cenário também influenciou a desregulação das condições climáticas naturais:
“O que os estudos indicam é que as florestas podem levar anos para se recuperarem dos efeitos dessas secas extremas, o que pode gerar outros desequilíbrios ecológicos como a menor capacidade de sequestrar gás carbônico da atmosfera e a perda de biodiversidade”, afirma.
Além disso, durante secas extremas, o risco para áreas altamente desmatadas é ainda maior. O fator potencializa a ocorrência de incêndios florestais, prejudicando a fauna, a flora e a saúde da população.
As condições são reversíveis?
Amazônia tem áreas 3ºC mais quentes e com 25% menos chuva, aponta estudo
Mitsuka Paschoal/ Wikimedia Commons
A existência de um “ponto de não retorno” hidrológico na Amazônia ainda é tema de debate científico. De acordo com o pesquisador, não há evidências suficientes para definir um limite crítico exato de seca ou temperatura que levaria ao colapso irreversível do ciclo da água, já que a floresta responde de maneira diferente conforme a região. É necessário aprofundar os estudos para entender melhor essas respostas.
Porém, o alerta é fundamental. Mesmo sem um limite claramente definido, a combinação entre secas extremas mais frequentes, aumento das temperaturas e avanço do desmatamento pode comprometer progressivamente o funcionamento do ciclo da água, reduzindo a capacidade da floresta de se manter e regular o clima.
Possíveis soluções
Como caminhos prioritários, o pesquisador aponta o combate ao desmatamento ilegal e a proteção das áreas ainda preservadas, como Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Apesar da queda recente nas taxas, o desmatamento anual na Amazônia ainda é considerado elevado.
Outra frente essencial é a restauração florestal em regiões degradadas, especialmente em propriedades rurais que não cumprem o Código Florestal — a lei exige a preservação de 80% de vegetação nativa na Amazônia.
Segundo o estudo, a restauração pode ajudar a recuperar parte das condições climáticas afetadas. Além disso, políticas públicas que ofereçam incentivos financeiros a quem conserva e restaura são fundamentais para valorizar os serviços ambientais prestados pela floresta.
*Sob supervisão de Rodrigo Peronti.
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